Primeiros apontamentos

Muros Agudos Iguais a Fome – Primeiros Apontamentos

  • Quem poderiam ser?
  1. Moradores locais de uma cidade que se encontram em estado de sítio, isolados dos seus familiares e obrigados a trabalhar sobre coerção do governo/exército.
  2. Mulher saía para trabalhar fora, trabalhava na casa de pessoas da alta sociedade e entende muito bem de suas prioridades. Sempre deixada de lado, mal vista, visível apenas quando se faz necessária.
  3. Homem, trabalhador braçal, faz o que lhe é mandado sem questionar e se vê “satisfeito” em sua atual condição. Ele reluta em ir contra o sistema, na verdade, o defende como se ele fosse parte vital da sua existência.
  4. Essas duas figuras podem ser coveiros, cavam túmulos, constroem lápides e coroam com flores os que sucumbiram ao tempo.
  • Onde poderiam estar?
  1. Isolados em casa pela devastação da guerra, constroem muros contra sua vontade, muros esses que cerceiam a liberdade.
  2. Mundo decrépito, um pouco no futuro do que é hoje. Trabalhos escassos, fome, miséria. A liberdade é apenas ilusória, violência exacerbada, controle de direitos, censura. Andar na rua não é seguro, as pessoas estão em situação de subsistência. As instituições decaídas. Há, em todo lugar olhos atentos a seus movimentos.
  3. Cemitério, dia após dia enterrando remessas de corpos ali jogados.
  • O que querem?
  1. Mulher sonha com uma vida digna, uma vida que nunca teve, que foi arrancada dela. O sentimento de indignação só cresce, cansada de aguentar as imposições diárias, ela quer acordar e fazer com que outros também acordem.
  2. Homem passivo. Que nunca se revoltou, mas que inconscientemente sabe que a situação em que vive não é, e nunca foi favorável, cansado está cedendo quase completamente ao sistema.
  • Suposições acerca do personagens
  1. Homem é supérfluo, mas não necessariamente por escolha. Não conseguiu remediar a vida banal imposta pelo sistema e segue no fluxo linear dos acontecimentos. Sabe a hora de comer, dormir, trabalhar, escovar os dentes, foder, beber, casar, ter filhos, morrer… Apenas mais uma engrenagem da máquina que um dia chamaram de REVOLUÇÃO industrial. Cansado, fadigado, dorme entre um intervalo e outro, se alimenta mal, não é feliz. Talvez a única época feliz tenha sido sua infância, onde se perdia no mundo concedido a ele.
  2. Mulher que aprendeu sobre a vida cedo, assim como tantas outras. Mas não porque quis, porque esse direito foi tirado dela logo cedo. Trabalha muito, doa seu tempo e sua força de trabalho a um sistema que nunca está satisfeito e que ano após ano, década após década, se subdivide mais ainda. Atualmente se depara com o momento que chamam de HISTÓRICO onde as liberdades estão sendo diluídas e ela se vê no meio do conflito. Sua vida não pode passar em branco, toda uma existência/resistência contínua, diariamente. Revolta! Revolução! Isso é o que tem que ser feito agora.
  • Que peça é essa?

Uma peça que fala da inevitabilidade do tempo. E, se esse tempo é inevitável, como lidamos com ele? O texto nos atravessa, assim como, o tempo. E proporciona mais de um lugar de experimentação, como um tempo presente, que é contínuo, ou até mesmo um futuro mais próximo do que esperávamos. Viver é um ato político! De forma inerente, viver em sociedade nos convenciona a lugares e ações que as vezes não queremos estar/fazer. Mas quando a democracia é banalizada, é nosso dever fazer algo em nome das liberdades conquistadas, esse texto se faz necessário nesse momento presente onde muitas pessoas estão cegas, iludidas e não percebem que estamos infelizmente indo na direção contrária.

  • Espaço cênico, intenções, questões e leituras contemporâneas.

Animais podem ser analogias às pessoas que eles nunca veem, mas que controlam tudo (elite). Fumar seria o escape momentâneo daquela situação e por mais que faça mal, não importa, o mundo já tá fodido mesmo. Porém, mesmo assim o homem reluta em ir contra o sistema, na verdade, o defende. Talvez o ato de fumar seja um lampejo de esperança, esperança essa que pode ser vazia num contexto geral, mas que pra esses dois personagens pode ser a única coisa que os mantêm juntos/vivos no momento. A subdivisão de classes infelizmente é real, faz parte das muitas construções sociais que nos permeiam e que criam essa disparidade egocêntrica, fazendo com que sejamos manipulados e questionados o tempo todo. Nos questionamos entre nós mesmos quando, na verdade, deveríamos questionar as imposições diárias. E mesmo com todas as disparidades, todos fumam! Até quem a gente não vê.

Bruno Santos – brunnoloiro@hotmail.com

Me chamo Bruno Santos, sou filho da minha mãe, empregada doméstica, o que implica uma realidade já bem definida socialmente. Mesmo nessa condição, minha mãe nunca deixou de me apoiar e instigar a ser mais. Me inspiro nela todos os dias, nas suas lutas, conquistas e derrotas que, de alguma forma também são minhas. Comecei a estudar cinema no Porto Iracema das Artes, escola essa que me proporcionou o contato inicial e direto no meio artístico de Fortaleza. Em 2016, no meu primeiro ano na escola, estudei montagem para o audiovisual e em seguida, no mesmo ano, pude participar de um processo chamado PREAMAR, em resumo, é um processo onde as linguagens se misturam e os alunos aprendem na prática meios e métodos aplicáveis na área de estudo que escolheram. Nesse PREAMAR eu fui continuísta de um curta.
Em 2017, continuei estudando audiovisual na escola, mas agora na vertente da animação, outra forma de contação histórias. No final desse mesmo ano participei de mais um curta, por parte do projeto Artes de Proa, também do Porto Iracema das Artes. E tive contato mais uma vez com atuação e algo novo, a dança.
Em 2019, estava de volta mais uma vez ao Porto Iracema, agora ocupando a posição de aluno no Percurso Práticas do Ator. De forma geral foi um ano muito bom, novas experiências, práticas e pessoas. Professores maravilhosos e fórmulas de criação excepcionais, aprendidas a cada dia. O processo foi enriquecedor e cresci como ator, vivendo às dores e amarguras do ser, mas também, os deleites e a satisfação do criar. No fim do ano tive a oportunidade de me apresentar no Teatro Dragão do Mar, e foi incrível!

 

Fotos Alan Sousa