O quarto e último módulo do Preamar de Artes Visuais contou com o acompanhamento de Waléria Américo que antes mesmo que encontrar os alunos lançou uma provocação para que eles pudessem começar a pensar suas produções no espaço expositivo.

Os encontros aconteceram de forma individual e coletiva e como provocação na finalização dos encontros, Waléria deixou cada participante com questões personalizadas sobre seus trabalhos:

ENTREVISTA PREAMAR ARTES VISUAIS

por Waléria Américo

Camila Vas

O silêncio agrada a todos 

 

  1. O gosto indigesto no copo, O silêncio agrada a todos, sua obra nos convida a uma reflexão ética sobre a tragédia no mar brasileiro. Eu queria ouvir seu relato de artistas sobre a mancha de óleo que avançou em tantas direções, chegando na terra, nos nossos pés, mãos, mesa e coração. O que você pensa sobre o papel da arte nos dias de hoje? 

 

  1. O objeto proposto para exposição Pequenas invenções para existir no mar aponta para o individual se lembramos do copo d’água, mas sugere o coletivo se imaginamos o copo de óleo (petróleo). Qual sua percepção do significado da obra na relação de escala, o mínimo que se amplia em direção o máximo, conte sobre o caminho da peça no pedestal ao título do trabalho? 

 

  1. Agora falando da sua formação artística e outros trabalhos do meio cultural, reconhece igual interesse em discutir a arte na dimensão de urgências social ou políticas? Comente outros projetos que tem participado dentro e fora do Porto Iracema. 

 

Fernanda Barbosa

Acomodando a falta

 

  1. Quando trabalho com curadoria fico grata em conhecer os processos dos artistas, o vivo inquieto que muda de lugar para deixar emergir a obra em si. A pesquisa que desenvolveu no programa Preamar iniciou com a tensão de arte e psicanalise, o poder do falo e o um projeto de escultura para tratar do social. Pode explicar como a “falta” tornou-se a questão central diluindo a primeira imagem e dando espaço para uma produção autobiográfica. Depois de realizado o cozimento do tempo, pode contar o importante do projeto Acomodando a falta

 

  1. A experiência estética do artista é distinta da experiência estética do espectador, mas aproximando os dois momentos ou invertendo a sua posição, eu te pergunto: O que este trabalho te revelou? Pode considerar tanto o que você observou como a narrativas de outros que interagiram com a obra. 

 

  1. Tratando das linguagens artísticas podemos dizer que o percurso do Acomodando a falta começa de uma vontade de escultórica que se dilui para o plano de cor, pictórico, concorda? Atualmente tem interessado em seguir os estudos e produção no campo das artes visuais utilizando que tipo de materialidade? Quais temáticas conceituais esta pesquisando?  

Iara Alves 

Vênus

 

  1. Partindo do título da obra, Vênus, podemos olhar pelo brilho do amor e beleza, e voltando a conversas do Preamar, recordo que sua fala sobre a pesquisa sublinhava a ideia de natureza pelo cuidado de si. Depois expor na mostra, Pequenas invenções para existir no mar o que destaca de importante no cultivo e realização deste trabalho que une diferentes processos manuais e relacionais? Pode revelar alguma história desta imagem final?

 

  1. Falando da peça escultórica em si e a dinâmica da colagem entre os elementos naturais e o feminino, as escolhas para o desenho da forma e as cores, pontue como você cria seus trabalhos dentro ou fora do ateliê? 

 

  1. Penso que existe na sua pesquisa um discurso que trata da velha dicotomia homem x natureza, inclusive durante os planos para montagem debatemos possibilidades do trabalho ser instalado no espaço do jardim do Porto Iracema. Gostaria de saber o como esses ambientes, interações naturais ou questões ecológicas tem influenciado a sua produção artística? 

 

Jocilone Júnior

Trago?

 

  1. Diante de Trago? visualizei um horizonte onde a mensagem pede proximidade, um percurso do corpo se mantém para interação com a obra que me remeteu ao processo movente desenvolvido na pesquisa, ou seja, a coleta do objeto carteira de cigarro durante seu transitar pela cidade. Vamos começar deste ponto, a recolha do que te aparece no caminho, a caixa e sua materialidade junto a informação visual. Como se deu a vontade de colecionar as carteiras de cigarros? E qual a sua relação com os elementos visuais e texto que habitam as descartáveis caixas de papel? 

 

  1. Sabendo que você não é fumante eu volto a uma frase que colocou durante a orientação no projeto Preamar: “Eu quero que o trabalho fale de vida.” Neste sentido eu fico pensando em outra qualidade sensível que você estabelece com o objeto, a informação é simbólica e entre a mensagem original e alterada reside o ato de apagar que é também re-escreve a pergunta: Trago? Então o que o artista traz para o mundo? Quais as descobertas no trajeto que vai do projeto para a obra exposta no Porto Iracema? 

 

  1. Passada a exposição Pequenas invenções para existir no mar o que tem realizado de pesquisa nas artes visuais? Durante o Preamar você tinha demonstrado um especial interesse em Livro de Artista, dentre outras expressões artísticas no campo da imagem e publicações. Como tem projetado a sua produção depois da realização da obra Trago? ?

 

Jeca Pedregulho

Posso te contar um segredo de amor?

 

  1. A ação performática é amorosa, guardar o segredo alheio, fazer escuta e depois embaralhar em uma espécie de texto desterritorializado. Você escolher dividir a pesquisa desta imagem intima em duas situações: o ato de contar o segredo de amor, realizando a performance na escala de um para um, e a produção desta ação orientada para o vídeo, avivando as memórias. Como foi realizar os dois tempos desta mesma obra para exposição do Preamar? 

 

  1. Existe na composição da performance um elemento importante que também movimenta o sentido de intimidade e dialogo com o corpo. Trata da roupa-pele que você veste e tece entre as palavras que divide com o outro, a costura no centro do peito demarca novamente o segredo, o sexo, o proibido e infinitas correlações que podemos estabelecer com o título da obra. O que deseja partilha sobre este gesto dentro da ação performativa?  

 

  1. Falando da performance como linguagem artística e seu interesse de pesquisa neste campo das artes visuais. Você havia realizado trabalhos no campo performativo antes do Posso de contar um segredo de amor? ? Tem interesse em seguir pesquisando ou realizar obras de caráter efêmero, onde o corpo se coloca como o vetor primordial do projeto de arte? 

 

Mateus Leoni  /  L.

Quarto?

 

  1. Podemos dizer que a pesquisa que esteve envolvido durante o Preamar trata de espaço criativo autobiográfico, onde fenômenos vivenciados no seu quarto deixa emergir uma série de imagens se instalam no limiar de vida e arte? Como foi para você transmutar esta série de acontecimentos em uma obra de pequeno formato exposta no Porto Iracema das Artes? 

 

  1. A narrativa das formigas em sua cama aparece como uma imagem central, existe uma força nas palavras narradas durante o seu processo no Preamar. Você escreve durante o seu processo artístico? O que mudou neste projeto depois da exposição Pequenas invenções para existir no mar

 

  1. O lugar quarto está ligado especificamente a este momento da produção em artes visuais, onde os travesseiros aparecem como resultado final, ou podemos pensar na continuidade do quarto como uma inspiração para futuras invenções de mundos? Partilha sobre a produção dos travesseiros em ateliê e o desenho expositivo da obra de arte. 

 

Rafaela Teixeira 

CorpA-guerrilha

 

  1. Volto a pensar na imagem das pequenas esculturas em argila, a série de guerreiras atemporais que trouxe durante a orientação de projetos do Preamar. Como iniciou o processo criativo com as miniaturas, e a vivência com estes materiais no campo das artes? Neste período quais artistas os autores influenciaram seu imaginário ou dialogaram com o projeto apresentado no Porto Iracema? 

 

  1. Ampliar o objeto escupido por suas mãos para devolver a dimensão do corpo deve ter gerado diferentes conhecimentos e reflexões artísticas. Como aconteceu esta preparação para se tornar a obra, quero dizer, ser novamente a CorpA-guerrilha? Fale o sobre como devemos interpretar este termos (título da obra) antes de mergulhar na imagem?

 

  1. O vídeo que realizou para a exposição Pequenas invenções para existir no mar, mostra a personagem que carrega uma pedra nas costa a andar na paisagem natural. Qual a apreciação fazer do corpo performativo na imagem em movimento? Partilhe o que desejar sobre a experiencia de realização da obra audiovisual.

 

Arth3mis 

Desastres cotidianos

 

  1. Existe um percurso que atravessa a obra Desastre cotidianos, o corpo antes de chegar ao espaço do Porto Iracema organiza outros lugares por meio de desenhos e escritas em tons de azul e preto. Pode comentar como o deslocamento na cidade influência o seu processo criativo? Você percebe que a interação com a rua aparece em outras pesquisas que desenvolve no campo das artes visuais?

 

  1. Acompanhando o seu trabalho durante o Preamar percebo a palavra como um som visual, elemento fundamental da intervenção urbana que esconde o desenho. Queria saber da ação com os lambe-lambe dentro e fora do espaço expositivo, como aconteceu esta experiência na sua perspectiva de artista e público?

 

  1. O artista inveta mundos dentro do mundo e irradia por suas obras possibilidades diferentes no dia a dia. Como você tem relacionado sua produção no contexto de vida e arte? Falando de invenção, nos conte o significado de seu nome artístico? 

 

Léticia Belo 

Nostalgia dos dias que te via e falávamos besteira

 

  1. Penso que seu trabalho desenha histórias em silêncio, os rostos fotográficos criados para exposição, Pequenas invenções para existir no mar nos falam por suas cores vivas. Queria te pedir para partilhar sobre o processo de construção da obra Nostalgia dos dias que te via e falávamos besteira. Como realizou a composição desta serie de imagens e se tem interesse de continuar a desenvolver este projeto de artístico? 

 

  1. Falando agora da montagem da obra no espaço expositivo da Escola do Porto Iracema, observei que a situação de corredor gerou certo movimento aos rostos. Percebo que a relação de memória contida na sua pesquisa encontra o tempo presente pelo olhar desta imagem-personagem, concorda? Comenta sobre o projeto de montagem e como imaginou a relação da obra e espectador? 

 

  1. Suas experiências no campo das artes contempla também o audiovisual, lembro que comentou durante as orientações do Preamar sua preferência em trabalha com desenho para a exposição no lugar de filmes. Passado a mostra, Pequenas invenções para existir no mar aponte o que foi importante desta escolha, e como você percebe hoje a interação entre as linguagens artísticas em seus projetos de arte?

 

Érica Nog 

Angustipatia

 

  1. Na sua pesquisa, o desenho e a pintura se misturam a corpos femininos, pode falar como iniciou seus trabalhos e projetos nas artes visuais? Como pensa a relação entre os temas com as imagens dentro do processo artístico?

 

  1. Durante as conversas de acompanhamento de projeto do Preamar você relatou que existia o desejo de desenvolver obras com outras materialidades, te pergunto se atualmente tem realizado projetos com outras linguagens de arte? Conte como tem retomado sua produção depois da experiência de expor na mostra, Pequenas invenções para existir no mar. 

 

  1. Refletindo sobre a obra Angustipatia eu queria que comentasse como criou esta imagem, tanto na sua dimensão conceitual quando esta ligada a um sensível do corpo na sua dimensão autobiográfica, quanto na sua referência estética, ou seja, a figura separada em partes como visualizei no seu esboço, ou a permanecia de cores, etc. Como percebe o corpo desencontrado na representação da imagem? Podemos pensar em camadas de tempos? Comente sobre a montagem da peça em si para o espaço expositivo do Porto Iracema. 

 

Vinicius Braga 

sem título

 

  1. Quando olho seu trabalho penso no que “escapa” ao visível, o movimento de fuga que desenha na pintura-colagem aproxima signos que nos remetem a liberdade e o ato de guardar, pássaro e gaveta em diálogo. Como você ver a sua obra exposta no Porto Iracema? 

 

  1. Pode falar sobre sua produção artística, digo outros processos antes ou depois da mostra, Pequenas invenções para existir no mar. Eu gostaria de saber como esta ideia de apropriação de objetos tem acontecido nos trabalhos de arte, podemos pensar neste deslocamento como o “readymade” de Marcel Duchamp ou trata de composições ligadas ao campo da Arte Urbana? Quais artistas tem inspirado seus estudos no campo das artes?

 

  1. Dentro da sua relação com as linguagens de arte como tem desenhado sua trajetória artística na arte contemporânea? Como percebe a importância do artista e de projetos com formação em arte dentro do atual contexto social e político? 

Waléria Américo

É artista visual. Suas experimentações artísticas põem em tensão questões que permeiam o corpo e o entorno, a arquitetura e a paisagem, abrindo novas perspectivas de orientação espaço-temporal que no entanto nunca se deixam fixar. Trabalha majoritariamente com registros fotográficos ou em vídeo, muitas vezes de performances que terminam por integrar instalações, também passando pelo objeto, desenho e experimentações sonoras. Realizou exposições individuais no Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza (2008); e na Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro (2012); além de ter participado da Jogja Biennale XIV: Indonesia meets Brasil – Jogja National Museum – Indonesia (2017); do Fuso – Festival de Video Arte no Maat, Lisboa (2016); 19o Festival de Arte Contemporânea Sesc Vídeo Brasil, São Paulo (2015); Frestas Trienal de Arte, São Paulo (2014); Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo (2007); da Bolsa Pampulha, Belo Horizonte (2005 e 2006); e Rumos Visuais, Itaú Cultural, São Paulo (2005 e 2006). Recebeu o Prêmio Illy Sustain Art Brasil, SP Arte, São Paulo (2013) e Prêmio Residência Artística no Exterior do Itamaraty, Fundación ACE, Argentina (2014).