Perguntas de Waléria Américo sobre o projeto “Memória Volátil”, de Rômulo Silveira

  1. Rômulo, quero conversar sobre a produção das imagens da série Memória Volátil. Você pode falar sobre o início da pesquisa com negativos? Como encontrou a fotografia analógica? Qual o processo que opera os arquivos digitais?

Eu já havia começado a experimentar a fotografia analógica e pensar outras formas produzir fotografia quando encontrei alguns negativos. Em um primeiro momento me mantive um pouco imobilizado sobre o uso desses negativos, mas me dei conta dos desgastes de alguns desses negativos e esses desgastes me ofereceram a forma para a metáfora que até então eu não conseguia materializar. Então passei a aprofundar e replicar essa estética de deterioração sobre outros negativos, sobre negativos digitalizados e a experimentar a reprodução desse processo físico sobre fotografia digitais.  Assim, acabo subvertendo um pouco da fronteira entre digital e analógico, quando reproduzo o analógico por meio do digital ou submeto o digital a uma deterioração que não foi feita pra ele, que não é resultado de suas próprias características materiais.

Não sei bem situar o momento exato em que encontrei a fotografia analógica. Apesar de ter uma vaga lembrança da fotografia analógica na infância, a fotografia que mais pude experienciar foi a fotografia digital pois, já naquele momento a fotografia digital começava a se popularizar, e a fotografia analógica caía em desuso. Acredito que meu interesse pela fotografia analógica, mais do que por saudosismo, se dá por um interesse estético e uma vontade de experimentar processos, de retomar um modo de produção de imagens que, hoje, passou a ser alternativo frente ao modo corrente que padroniza a fotografia. Claro que esse meu interesse estético pela imagem analógica também parte de um determinado imaginário que foi construído pelo que um dia foi o padrão visual de fotografia e que em certa medida foi internalizado por mim, mas é aí que entra a questão da experimentação e da intervenção. 

  1. Eu penso o “fotografar” no contexto do seu projeto como o percurso de descoberta da imagem, a apropriação, seleção e edição são processos para o “fazer a foto”. Existe o pensamento de construção da imagem mesmo sem usar a câmera. Percebe que a ação de “deslocar os negativos” e “expor as fotografias” pelo seu olhar, gera uma discussão sobre como produzimos imagens hoje. Como você tem pensado o “revelar” das imagens do outro? O que você vê nas três imagens que selecionou para exposição do Preamar?

Eu reflito, primeiramente, pensando o respeito que eu devo ter com os arquivos, sejam meus, doados ou um presente dos percursos cotidianos. Mas ainda estou processando algumas das questões que envolvem esse trabalho. No conjunto geral e no específico selecionado vejo uma multidão de elementos: os processos de criação da imagem, a deterioração do material que me remete a como nossa própria memória é “perdida” ou editada ao longo dos anos e o registro de um momento em que sujeitos dançantes se divertem e riem. O registro, embora estático, me remete uma história, mas o distanciamento de quem não esteve presente mantém em aberto a cronologia. O espectador desse recorte preenche os interlúdios. Acho que essa criação sobre a criação é um outro elemento que persigo e que me persegue. 

  1. Vou continuar traçando um paralelo entre o analógico e o digital, mesmo entendendo que a natureza deste trabalho atravessa os dois tempos da imagem sem se fixar. Você, por exemplo, para visualizar o negativo usa aplicativos no celular, substituído o que antes seria o momento da mesa de luz. Observo o negativo descartado que você colhe como matéria do seu trabalho, se aproxima, mesmo que diferente, do arquivo digital que manipulamos diariamente. Quando não gostamos da imagem – deleta, ou melhor, jogamos na lixeira. O que você tem refletido ao se propor dar vida para imagens que foram descartadas? Comenta como você tem trabalhando essa matriz fotográfica, danificada e abandonada.

Eu penso sobre como naturalizamos determinados tipos de imagem de forma que limitamos as possibilidades de experimentações. É difícil sair disso, mas e se fotografia que “não deu certo” for uma possibilidade de criar sobre? E se o erro que faz da imagem descartável nos mostrar novos ângulos? O dano sobre a imagem física e a reprodução do dano físico sobre a imagem digital são formas de experimentação que venho buscando nesse processo. Compreendo os avanços dos equipamentos fotográficos e todas as perspectivas que eles têm a nos oferecer, mas por que não cruzar todas essas possibilidades?

 

Sobre Rômulo Silveira
Rômulo Silveira, natural de Fortaleza, é fotógrafo e graduado em Ciências Sociais (UECE). O artista experimenta aspectos e estéticas diversas na produção de imagens, dedicando atenção especial à pesquisa sobre memória, arquivos pessoais e ativação de afetos pela produção de imagens. A fotografia analógica é outra marca presente em suas pesquisas.