Matilde (2019)

Meu nome é Matilde e eu apareço quando bem quero. Encorporo e me refaço. Estou em vários lugares agora, sou de muitos outros tempos e vim deixar minha mensagem: Não deixarei você esquecer. Volto até mil vezes se for necessário nesse mundo. Volto nas folhas que caem, na raiz da terra, faço minha voz ecoar nos ventos dessa cidade. Meu nome significa guerreira forte. Sou a mulher que existiu, sou uma lembrança sua que um dia teve cabelos pretos e hoje esbranquece na eternidade.

Perguntas de Waléria Américo sobre Matilde, projeto de Beatriz Almeida

  1. Beatriz, durante a conversa de orientação do Preamar, você contextualizou que sua pesquisa parte de memórias familiares, da reflexão sobre um acontecimento e suas reverberações na vida das pessoas. É interessante que para tratar da memória você usou a frase: … para não esquecer. O que você sublinha de importante no processo do trabalho?

A aparição da Matilde no meu processo criativo me possibilitou um passeio narrativo, onde me percebi dando voz à um fantasma que talvez sempre esteve presente no meu cotidiano e eu não via. Eu pensei que encorporarando essa mulher, eu acessaria uma outra temporalidade e dimensão mas no processo vejo que na verdade é Matilde que começa a acessar o meu tempo-espaço e ela que me ajuda a contar minha história. Sou apenas o canal para que essa imagem retorne e permaneça. Claro que eu, como artista, experimento ativamente essa interação e busco transformá-la em um símbolo de resistência no fio desgastado da memória. O trabalho é importante por ser um texto biográfico onde eu exponho minhas ficções visuais e escritas.

 

2. Eu queria voltar na fotopintura da sua avó para te perguntar: Você considera que este objeto foi gerador de vários procedimentos para o campo da arte? Eu percebo que a imagem irradia pensamentos e ações que resultaram também na obra Matilde. Pode comentar sobre a escolha do nome da obra, a Matilde é uma personagem?

Essa fotopintura sempre esteve presente na casa da minha avó materna, meu amor, que se chama Matilde. Essa personagem foi sim baseada nas histórias que ouvi dela condensada com meus próprios pensamentos.No processo anterior ao PREAMAR, que foi o Poética da existência, experimentei resgatar as memórias da minha família junto com João Viana, meu bisavô que hoje passa por um processo de transformação que o Alzheimer lhe impõe. Percebi ali que ele não lembrava mais da Matilde e nem das situações que rondavam esse nome. Essa observação se desdobrou na minha tentativa de recriar esse personagem e personificá-lo através da performance. Matilde é o que um dia minha avó foi mas ao mesmo tempo é como me vejo hoje. Não é justo que qualquer condição tire sua imagem da memória daqueles que merecem lembrar dela. Não falando apenas do meu bisavô, mas de todos. Matilde está nas folhas das árvores, está nos muros, está nos bairros, nos papéis mofados, em cada tecido em cada peça de roupa. Ela some e mas sempre volta.

3. Penso que a escrita aparece como elemento fundamental na construção de Matilde, existe uma tensão sobre o contar da história, o lembrar e o inventar da memória. Entendo a frase gravada no objeto, faca como um fragmento do texto que você compõe sobre si e o outro. Como você percebe a narrativa pelo jogo de imagem e palavra? 

A imagem de Matilde nos objetos e sua voz cravada nas coisas são exemplos dessa tentativa de ser percebida nos detalhes do cotidiano. A faca, nesse processo, desencadeou muitas lembraças de histórias que eu ouvi e me pereceu necessária nessa obra para trazer essa dualidade do objeto violento e cortante com uma frase que beira o macabro, já que falamos aqui desse fantasma, com a imagem dessa moça com olhar sério estampada em algo leve, em tecido, que remete a essa ideia do delicado. A intenção é o choque dessas duas sensações contrárias. Essa visualidade me ajuda a compor a experiência que quero compartilhar. 

 

Foto de Nayara Costa

Sobre Beatriz Almeida

Beatriz Almeida, educadora e artista visual, desenvolve trabalhos literários e fotográficos. Sua pesquisa consiste em manipular seu arquivo familiar para observar a fragmentação da memória. Um dos desdobramentos da sua produção foi a criação da personagem Matilde, que ocupa vários espaços e múltiplas materialidades sendo um símbolo da resistência da própria artista aqui, na memória, na cidade. Graduanda em Letras pela UFC, foi aluna do Percurso de Fotografia e do PREAMAR do Programa de Fotopoéticas da Escola Porto Iracema das Artes.

Veja “Matilde” e outros projetos de Beatriz Almeida: https://www.behance.net/beatrizalmeidaphoto.