Eutrofização é o processo de poluição das águas através da explosão de matéria orgânica que acaba trazendo a morte dos seres vivos. Esse excesso que primeiro faz explodir vida e depois a faz se esvair, faz faltar oxigênio. É sobre isso que fala a obra, sobre um processo de soterramento, de extrema poluição das emoções, das sensações, da mente. Sobre a morte em vida. Fala também sobre luta, mesmo quando a luz não chega mais.

(Foto: Tainá Cavalcante)

 

Perguntas de Waléria Américo sobre Eutrofização, de Jessika Barbosa

  1. Jessika, vamos falar sobre seu projeto audiovisual o Eutrofização. Eu queria refletir sobre o ato de acender e apagar as velas, imagem que você desdobra da performance para o vídeo. Como você entende o seu corpo e a imagem do seu corpo quando habita a fronteira do claro e escuro? O que simboliza a vela, o fogo e o ritual neste trabalho artístico?

Sabe essas portas que você passa sem perceber muito bem, sem prestar muita atenção, e quando se da conta não está no lugar que você queria estar e que a saída desse lugar parece simplesmente não existir, mas ai aqueles que te amam, começam a se dar conta da tua ausência e começam a te procurar, inclusive nesse lugar que você entrou, eles são as luzes que começam a iluminar esse lugar nebuloso, estranho a ti, mas que ao mesmo tempo é tão familiar, essas luzes te guiam. O claro e o escuro presente no trabalho, é exatamente a representação desses lugares que minha mente e meu corpo por vezes transita. A vela simboliza o amor dessas pessoas por mim, que me fazem voltar, o fogo é a minha própria luz que volta a brilhar. Não sei se ficou muito claro como é esse processo, nem pra mim é, mas de que eu saio desses lugar com mais força, com mais medos superados, isso eu tenho certeza.  Também simbolizam a conexão com meus guias espirituais, ao acender uma vela e conversar com eles o fogo se une a energia das minhas intenções e ajuda na comunicação, por isso o ritual, me colocar no centro dessas luzes, com a intenções direcionadas.

  1. Eu gostaria que você comentasse sobre o texto que atravessa a sua imagem, como o áudio cria um espaço de intimidade. Penso que o artista quando produz sua obra, sempre modula uma variação entre o mostrar e o esconder. O que seu trabalho quer deixar visível?

O texto é muito importante para o vídeo-instalação, ele que conduziu o video, foi um texto escrito em momentos diferentes, que falam muito dos meus processos de vida, ele é o processo também. Quanto ao que escolher para mostrar, eu escolho escancarar o que é a depressão para mim, e um pouco de como eu lido com esses momentos que vem e vão. Todas as vezes que retorno para o que escrevi, aprendo comigo, sobre mim, e me percebo melhor.

  1. Você pensou a montagem da obra Eutrofização como vídeo-instalação para convidar o outro a ver a imagem sentado em chão de areia, aproximar o espaço que usou na performance. Como pensa esses dois tempos da imagem, o seu corpo entregue a experiência, e o lugar instalativo do vídeo? O que pode contar sobre a presença da planta Espada de São Jorge? 

Como o vídeo é um processo muito íntimo e eu sei que muitos passam, eu quero que as pessoas se sintam mais próximas de mim e delas,  que elas entrem também nesse ritual, e que de alguma forma ele possa trazer pouco de luz para cada um. A espada de São Jorge, ou Espada de Ogum, traz proteção, esse é o objetivo, ela me traz proteção, traz para aqueles que precisam, ela também ajuda a cortar os males pela raiz. Ogum foi e é muito importante para mim, me ajuda muito na minha caminhada.

Vídeo-instalação de Jessika Barbosa na Galeria Leonilson (Foto: Té Pinheiro)

 

Autorretrato de Jessika

Sobre Jessika Barbosa

Jessika Barbosa, nascida em Fortaleza (CE), estudante de Cinema e Audiovisual (UFC), graduada em Ciências Biológicas (UECE), descobriu o amor pela fotografia ainda na faculdade de Biologia, fotografando fungos, lecionou na área da Biologia, mas não era o que fazia seu coração bater mais forte e resolveu então fazer algo que o fizesse, optando assim por Cinema, pois viu que poderia se aproximar mais da arte e da fotografia. Continua seus processos de formação como pessoa, como artista, como fotógrafa, buscando sempre se conhecer e nesse percurso tenta tocar as pessoas com o que faz.