A sala de ensaio

Dois diretores, Edivaldo Batista e Joel Monteiro, ambos ex-professores do Percurso Práticas do Ator, escolhidos por suas trajetórias, por suas propostas pedagógicas e pelo bom relacionamento já estabelecido entre estes alunos e professores, mais dez alunos, em sua maioria inexperientes, alunos que não se escolheram mutuamente, mas que dado o contexto, escolheram o desafio de trabalhar juntos, dois textos, uma sala de ensaio e quatro meses de processo para criar um espetáculo. 

Como começar? Por onde começar? Quem vai dirigir o que? Quem vai fazer qual espetáculo? Para tantas perguntas, não existe uma resposta única, não existe o caminho certo, senão várias respostas, vários caminhos e todos eles passam pela experimentação, pela descoberta de si no processo. 

Foram muitas dúvidas, muitos “quero isso”, “penso isso”, seguidos de “pensando melhor, quero aquilo”, “descobri que penso agora aquilo”… E diferente não poderia ser. Cada processo criativo é único, quando em coletivo também e aumentam assim suas variáveis, mas invariavelmente, é um processo de descoberta de si. Onde “me” coloco no processo, como “me” coloco no processo junto dos colegas também nele inserido? 

Nesse sentido, o mês de setembro foi em boa parte esse processo de experimentação com os textos, personagens, colegas e diretores, todos juntos em princípio. Aos poucos todos os envolvidos foram então descobrindo seus espaços de fala, seus desejos de fala e espaços de atuação, não só como diretores, atores e atrizes, mas como indivíduos pensantes e atuantes em sociedade.

Assim, em processo conjunto, Edivaldo Batista se tornou diretor de Muros Agudos Iguais à Fome (que deu origem ao espetáculo Cavalos-Marinhos) e Joel Monteiro se tornou diretor de Corpo Pedrado. Os dez alunos se tornaram também elenco dos dois processos seguindo a mesma metodologia. Para alguns, os imperativos da vida forçaram a saída, seja por motivo de saúde, a necessidade de arrumar emprego para ajudar em casa, dificuldades financeiras para arcar com passagens de ônibus e razões semelhantes, todas registradas pela coordenação. Razões que corroboram o fato de que todo e qualquer curso gratuito, não é por isso sem custo ao aluno, como aponta a fala de um personagem do texto Corpo Pedrado.

Os que permaneceram passaram por inúmeros desafios no campo pessoal como os propostos pelos diretores-professores, cuja função era mesmo essa: não só dirigir cenicamente um espetáculo, mas orientar e provocar alunos.

Edivaldo Batista é diretor teatral, ator pesquisador, preparador de elenco, ministrante de cursos e oficinas para atores e estudantes de teatro. Formado em Artes Cênicas pelo IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará). Já foi membro dos grupos Bagaceira de Teatro e Teatro Máquina. Entre 2013 e 2016, foi um dos artistas criadores do projeto Achados e Perdidos que concebe diversas cenas e experimentos cênicos-provocadores. Ator-Criador nos espetáculos para infância com a atriz e contadora Paula Iemanjá: As Fadas (2014); A menina dos Brincos de Ouro (2015). Assistente de Direção do Espetáculo Baldio do Grupo Pavilhão da Magnólia; diretor dos espetáculos João Sortudo da Companhia  Prisma de Artes e do espetáculo O bom é quando Acaba Bem do grupo Garajal. Em 2010 inicia uma investigação prática tendo como objeto de interesse a Mitologia dos Orixás, nação Keto, como ponto base para organizar um processo criativo afro-referenciado e destrinchado nos seguintes territórios cênicos: dramaturgia oral/narrativa dos orixás; dramaturgia corporal: investigação do movimento de representação do orixá: dança e estrutura energética; dramaturgia de cena: investigação de elementos estéticos afro-referenciados: canto, vestimenta, elementos ritualísticos. Dessa investigação os seguintes trabalhos compõem o repertório: O pequeno Ogum (2014) ; Iroko (2015); Yemonja e a Princesa Negra (2015/2016); Histórias de Heróis Negros (2017); Nó (2018/2019). Nos processos formativos realiza as seguintes ações: Terreiro de Mulheres e Corpo em Trabalho, ações de formação prática que tem como foco o treinamento físico por meio de alguns mitos pertencentes aos orixás, mais precisamente Iansã, e o culto dos ancestrais.

Joel Monteiro é ator formado pelo Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas do IFCE e já integrou os grupos Teatro Máquina (CE) e Clowns de Shakespeare (RN). Iniciou sua carreira nos festivais de esquetes de Fortaleza em 2004 ano em que integra o Teatro Máquina participando das produções de “Leonce+Lena” – 2005 (Ator e Ass. de Produção), “Répéter” – 2007 (Ator e Produtor) e “O Cantil” – 2008 – Produtor. Em 2007 desenvolve a pesquisa “‘A decisão’ de Bertolt Brecht – A formação do ator na prática das peças didáticas” contemplada pelo II Edital de Incentivo às Artes da SecultFor e realiza o espetáculo de conclusão do IFCE “Sonho de Uma Noite de Verão” com direção de Sidney Souto. Em 2010 ministra a disciplina “História Mundial do Teatro” em cursos de teatro em Fortaleza e Natal. No mesmo ano integra os Clowns de Shakespeare e participa das produções de “Sua Incelença, Ricardo III” (2010) com direção de Gabriel Villela, “Hamlet: um relato dramático medieval” (2013) com direção de Marcio Aurelio, a remontagem de “Muito Barulho por Quase Nada” (2014) e “Nuestra Senhora de las Nuvens” (2014) ambos com direção de Fernando Yamamoto. Junto aos Clowns de Shakespeare coordena as atividades de formação do grupo bem como o Ponto de Cultura Barracão Mambembe e a formulação e desenvolvimento do projeto pedagógico que hoje configura o Laboratório Clowns. Em 2016 integra o coletivo audiovisual Destino Coletivo em Natal e participa da produção do filme “Ensaio de roteiro” com direção e roteiro de Fábio de Silva. Em seu retorno a Fortaleza em 2018 ministra o percurso Teatro Épico juntamente ao Teatro Máquina na Escola Porto Iracema das Artes.

Ângela Soares

 

Fotos Alan Sousa