Eu gosto de escrever porque me sinto um herege, professando o mau agouro. Processos em escrita têm se sobressaído bastante na minha vida, talvez porque eu esteja faminto de alguma coisa ou bem longe disso que convencionaram como certo. Escrever Muros Agudos Iguais à Fome me deu bastante tesão. Não sei se foi meu gosto pelo jeito Hilstiano de pensar a dramaturgia (iguais à fome de certos pássaros), mas acho que a lombra bate mais quando Antonin Artaud fala que o teatro desperta esse estado poético que, no fundo, é aquilo que o público procura através do amor, do crime, das drogas […] Me procurar tão cirurgicamente nesses processos, tirar bem dentro daquele abismo particular algo que possa ser transformado em obra, em potência, me fascina. Quando foi feita a leitura do meu texto, já terminada a primeira fase do Ateliê de Escrita Dramática, me senti queimando, porque aqueles personagens sabiam mais de mim do que eu me sabia. A melhor parte, claro, foi ver minhas palavras ganhando tridimensionalidade: os atores suadinhos em cena, as cabeças intrigadas pensando intenções poéticas, o gosto dos muros na minha boca. Esses muros foram se tornando cavalos-marinhos, a crueldade das minhas palavras viraram a celebração irônica à vida. Foi gostoso que desmontaram, provaram, experimentaram às linhas. Linhas ficam para trás e daí surgem outras e outras, blocadas igual tijolos. De tudo, ficou a vontade de não deixar o teatro me esquecer, e sempre que possível, vou sugerir o drama para alguém que queria administrar (esteticamente) a própria insanidade (será que dramaturgia para mim é isso?). E não poderia me finalizar melhor do que com Hilda: “Eu te pareço louca?”

Yuri Marrocos – yurimarrocos@outlook.com.br

Meu nome é Yuri Marrocos. Sou formado pela Curso de Princípios Básicos de Teatro do Theatro José de Alencar e pelo Ateliê de Escrita Dramática da Escola Porto Iracema das Artes. Tenho me encontrado cada vez mais dentro da escrita teatral e hoje já componho coletivos e me vejo cada vez mais latente dentro desse caminho. Essa trajetória literária é fervilhante, e já estou num processo de escrita do meu primeiro livro de poesias, já pensando em outro livro que reúna meus textos dramáticos. Escrever é sempre um porto seguro onde posso voltar, me revisitar, e testemunhar meu contrato com minha insanidade.

Fotos Nayra Maria / @bufolica